ILHA
SAILING Ocean School - HISTÓRIAS DO MAR
F1-
A Força dos VentosEstava lendo uma matéria interessante sobre tornados na revista Galileu, quando estava na sala de espera do dentista em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, nem imaginava que em duas semanas, iria sentir na pele a força e as conseqüências de ventos que pela intensidade equivaleriam a força de tornados F1 de 64 a 97 nós (115 a 175 km/h).
O máximo que já tinha vivido, eram ventos com 50 e 70 nós dando aula, em regata ou em charter pelo canal que, em razão de sua geografia afunilada, dobra ou triplica sua intensidade.
Segundo caiçaras da ilha nunca tivemos ventos tão fortes.
Normalmente usamos a escala Beaufort para intensidade de vento no mar e nesta escala os estragos que relatamos abaixo acontecem a partir de ventos força 9 a 10 ou de 41 a 55 nós (74 a 100 km/h) de velocidade, porém particularmente usamos a tabela de tornados porque foram relatados fatos peculiares que acontecem em terra, como neste caso em que as rajadas encontradas estavam em torno de 72 a 90 nós (130 a 162 km/h), o que na escla Beaufort representa força 12 de 64 nós (115 km/h) para cima.
"No creo em
buenas bruxas pero que las hai, las hai"
Domingo, 7 de outubro – Como não tínhamos levado o veleiro para as 2 primeiras regatas da 3.a etapa do Campeonato Paulista de Vela Oceânica em Santos durante a semana passada, por problemas meteorológicos que geraram uma frente extra tropical intensa, com mar grosso e desencontrado devido a ventos de vários posições, com 8 a 20 nós e rajadas de 35 nós.
Acabamos fazendo aulas na Ilhabela e na madrugada de segunda, levantaríamos ferros com ventos de leste favoráveis de 8 a 20 nós, ainda sob o efeito de outra extra tropical com a correnteza para leste e a favor além do mar mais estável, para então participarmos das 2 últimas regatas no fim de semana seguinte.
Rolo Compressor
Para se ter
idéia do que é estar no mar nestas condições,
soubemos de 2 veleiros, um de 23 outro de 26 pés, que sairam durante
o fim de semana que não fomos, porque a meteorologia dava sinais
da primeira de uma série de ciclones extra tropicais como mostram
abaixo:
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a foto do INPE dia 30.09.2001 domingo às 01:39 horas;
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a previsãodo CPTEC para o dia 01.10.2001 segunda- feira as 12:00
horas, a escala abaixo é velocidade do vento em metros/segundo,
a grosso modo multiplique por 2 para dar nós ou milhas/hora;
-
a foto do INPE dia 01.10.2001 domingo às 01:39 horas.
Durante o ínicio da viagem dos veleiros até antes da Ilha do Montão de Trigo, o vento era de leste com rajadas de 25 nós, portanto a favor, com corrente também a favor, como previu a meteorologia enviada pelo canal 15 pela estação rádio costeira do Yacht Clube de Ilhabela.
Porém eram previstas também, mudanças de posições do vento e na realidade foi o que aconteceu, a tal ponto, que o vento chegou a ficar de oeste e contra a correnteza de leste, portanto criando um mar confuso, fazendo com que os veleiros não conseguissem evoluir no rumo para Santos que está a oeste e tivessem que se abrigar atrás da Ilha do Montão do Trigo, até os ventos voltarem para leste ou sueste.
Consequência: a viagem de 9 a 10 horas entre Ilhabela e Santos demorou 17 horas.
Neste caso específico,
os ventos fortes com a mudança de direção, foram causados
pelo encontro de duas frentes extra tropicais, sendo a primeira
que já estava no oceano, com ventos descendo no alinhamento de Cabo
Frio e passando ao largo e a outra passando por cima de São Paulo
e demorando para se dissipar no mar, pois estava empurrando a primeira
que oferecia resistência em mar aberto e adivinhem quem casualmente
estava no meio desta "coqueteleira" de ventos e correntezas malucas?
Nossos bravos
velejadores, que segundo informações chegaram bem doloridos,
algo mais ou menos parecido como rodar de jipe pela estrada projetada
Santos-Rio nos anos 70, depois de 1 semana de chuva.
São ventos fortes de sueste que anunciam entrada de vento leste forte, normalmente durante 3 dias com rajadas de 20 nós.
Na baia do Pindá Iate Clube no bairro do Saco da Capela, trouxe o nosso veleiro perto de terra para durante a madrugada, podermos subir mais facilmente devido a velocidade do vento, porém a poita era pequena e deixei uns 20 metros de cabo e âncora, para ajudar a não sair do lugar com vento mais forte.
Para não bater no veleiro que estava atrás, levantei âncora e saí num intervalo entre as rajadas.
Fui para o meio da baía com vento fraco e quando estava fazendo a manobra para pegar a bóia de uma outra poita, entrou rajada de vento forte empurrando o veleiro, tentei de novo, porém desta vez consegui pegar a bóia pois o vento baixou mas o motor desligou, ainda com o croque engatado no cabo da bóia entrou outra rajada , segurei até onde pude, porém soltei a bóia para não ser arrastado para dentro d'água. Veio outra rajada forte que deitou o veleiro e o croque caiu na água, tentei mas não consegui pegar.
Precisava ligar o motor porém devido ao pouco espaço entre os veleiros nesta baía do Saco da Capela, o veleiro foi derivando com a rajada e encaixou pela lateral de outro veleiro, ficando a minha popa virada para a proa do veleiro que ficou a contrabordo e o mais incrível, encaixou o cabo da poita no leme, sorte que o ventou abaixou e pude empurrar de ré o barco, sair e ligar o motor para pegar outra poita.
Devido
a escuridão entre os veleiros você não consegue saber
quando e de onde a rajada vem, para poder acelerar ou diminuir a força
do motor e não passar do ponto de pegar a bóia, além
de ter que tomar cuidado para não bater nos veleiros devido a proximidade.
Assobiar, chupar cana, sorrir,
fitar o gato e olhar o peixe, tudo ao mesmo tempo, é mais fácil.
Estava chegando perto de outra poita com menos velocidade devido ao vento
fraco, para fazer a manobra de aproximação quando entrou
rajada forte, acelerei para vencer o vento, porém o máximo
que consegui foi andar de lado e neste momento lembrei que tinha a silhueta
de uma bóia, mais para trás e que provavelmente estaria
próximo dela, bem perto de enroscar o hélice, quando
escutei um barulho de bóia batendo diversas vezes no casco, o veleiro
ficou pendurado de popa para o vento e com o cabo da bóia enroscado
no hélice, era só o que faltava....
Peguei o cabo de âncora no paiól de proa e amarrei em outra bóia mais para cima, passei uma volta pelo cunho, puxando, folgando o cabo aos poucos com ajuda da catraca, consegui aliviar a pressão do cabo da poita no eixo evitando entortá-lo, além de poder mergulhar numa água de 15 graus de temperatura e desenroscar o cabo do eixo.
Assim feito, soltei a amarração da popa e puxei o veleiro
pela proa com o mesmo cabo de âncora já amarrado na outra
bóia, assim acabei a aventura com o veleiro amarrado, são
e salvo em outra poita, sem arranhar ninguém.
Tentei fazer girar o hélice porém o motor morria e achei que tinha entortado o eixo e já eram 21:00 horas, as rajadas cada vez mais constantes e chega por hoje.
Amanhã
durante o dia irei examinar melhor o ocorrido e o vento deverá estar
mais brando.
Voltei à baía para colocar o veleiro em minha bóia, porém só pude amarrar bem as velas, pois o vento ainda continuava forte e de rajadas. Movimenta-lo com problemas no motor, mesmo com reboque, naquelas rajadas onde inclusive o barquinho do Iate Clube Pindá vencia com dificuldade, seria arranjar um boliche de veleiros logo cedo, quem sabe mais tarde e o vento aumentava e diminuía, porém o “vento do padre” continuava chamando o leste.
Quem sabe na
terça de manhã diminua o vento e......
Festa
Junina na Primavera
Às 23:00 horas - Neste momento, estava em casa, só escutando alguns deles e as quedas de energia que graças ao “no break” continuei trabalhando. Acho que daí para frente só não fiquei mais impressionado com o que aconteceu, por queria muito testar o quanto agüentava este aparelho nestas circunstancias e não me decepcionei.
Porém
da janela dava para ver as árvores deitando os galhos mais altos,
escutei o barulho de galho quebrando e folhas caindo atrás da casa,
Metade de uma árvore que caiu no muro,
em
outro momento foi um barulho surdo de algo caindo pela lateral de trás,
era uma bananeira vinagre que levou uma rajada de vento e arrancou-a com
raiz e tudo, jogando no chão
Terça,
9 de outubro, 01:00 hora - Verdadeiro pandemônio lá
fora, segundo informações de marinheiros que estavam, perto
do posto de gasolina flutuante da Agip do lado do Yacht Clube de Ilhabela,
eles viam o fundo do posto que tem grandes tanques de combustível,
aparecer no cavado das ondas que se formavam.
O cais flutuante de atracação em frente a sede do clube do clube deu um 180 graus no seu eixo, rebentando suas conexões.
Algumas árvores como figueiras e jaqueiras grossas foram arrancadas com raiz.
Uma árvore que estava dentro de hotel perto do Yacht Clube de Ilhabela, tombou e caiu no muro do hotel com os galhos amassando um Gol no estacionamento.
Da casa
de alvenaria de um caiçara, só sobrou a parede do banheiro
que tinha a pia e o espelho, imagina se ele estivesse escovando os dentes
nesta hora e aparecesse no espelho o que aconteceu?
Danos nas placas de sinalização das ruas.
E muitas folhas de coqueiro, cocos, mangas verdes, jacas e etc espalhados pela Ilhabela.
A traineira Luzitânia, registrou rajadas de vento de 72 nós (130 km/h).na baía do Yacht Clube de Ilhabela e um navio da Petrobrás que estava ancorado no canal também confirmou.
Este ventos duraram 02:30 horas e cairam para 45 nós até 12:00 desta têrca.
Em São Sebastião o vento leste e o sueste, canalizam com muita força devido a conformação geográfica saliente das montanhas que estreitam o canal de São Sebastião na altura da balsa, fazendo com que os 72 nós de vento que entraram na Ilhabela mais abrigada pelas montanhas, aumentasse para 90 nós registrados pela estação meteorológica da balsa de São Sebastião.
Também lá houveram destelhamentos de casas além de árvores arrancadas, casualmente um senhor falou que a copada de uma árvore "chapéu de sol" foi arrancada, que só ficou o tronco como se tivesse sofrido uma poda.
Acredito que em terra, o vento torna-se mais devastador do que no mar, pois a geografia de cada montanha, casa ou árvore pode provocar vários e fortes túneis de Venturi ou efeito de Coreolis e com muito mais coisas a atingir.
Túnel
de Venturi é como se pegássemos uma mangueira de jardim
e abríssemos a água.
Como a mangueira
é grossa a água sai com pouca velocidade, agora colocamos
o dedo para tentar segurar a água. Por algum lugar vai sair um jato
com muita pressão e velocidade.
O dedo e a
mangueira são as árvores, montanhas ou casas e o vento é
a água.
Portanto
se pegarmos a escala de tornados de F0 a F5 conforme a tabela, veremos
que os 72 nós (130 km/h) durante 02:30 horas teve o efeito de um
tornado F2 de 97 km/h em alguns lugares de Ilhabela, imagina em São
Sebastião.
Sugeriu contato com a Delegacia da Capitania dos Portos de São Sebastião para comunicar o fato e darem busca pelo canal, inclusive escutou falar através de outro marinheiro, que tinha um barco as 08:00 da manhã a deriva para os lados da Praia da Feiticeira ao sul da Ilhabela e a 4,7 milhas da baía do Saco da Capela.



Às 14:00 horas - Na praia da Feiticeira o veleiro andou com a poita do canto direito da praia até o píer que estava entre o meio da praia e o canto esquerdo e pelo embalo com que ia sendo arrastado pela correnteza ele iria permanecer nesta linha e poderia bater na laje da Cruz, pouco antes da Ponta do Veloso ou se tivesse sorte poderia parar nas pedras do costão depois da Ponta da Sela.
O veleiro andou das 24:00 de segunda até as 14:00 horas de terça, com média ventos fortes em torno dos 30 nós numa velocidade de 0,34 nós, pouco menos de meio nó.
Dá para ter uma idéia do que faria qualquer veleiro que se soltasse em ventos de leste sueste
O que faz o veleiro permanecer junto a Ilhabela é o sentido da correnteza,
que apesar de estar jogando no sentido Sul do canal, tinha uma tendência
a empurrar para a praia, devido a redemoinhos formados por pontas de terra,
baías e fundos mais rasos que o meio do canal.
Se jogasse o bote no meio da praia e fosse para o veleiro, teria que remar contra a correnteza de ondas de 0.5 a 1 metro de altura e ventos de 15 a 20 nós. Levei o bote para o canto direito da praia para remar no cavado da onda e com vento pelo través, ganhando assim mais velocidade e boa posição na aproximação, apesar de estar somente com remo.
Impressionante foi o estado do veleiro, intacto, nem acreditei na tremenda sorte dele sair arrastado com poita e tudo de uma baía com 6 veleiros e uma enorme escuna atrás dele, sendo jogados de um lado para o outro por causa do jogo do mar e vento, sem arranhar ou ser arranhado por ninguém.
Peguei o veleiro e trouxe para a baía do Pindá velejando.
Notei que havia uma movimentação de fragatas e lanchas da marinha pelo canal, indo da Ponta das Canas até a Ponta da Sela e imaginei que deveria ser algum tipo de manobra.
Poita II,
O Retorno.
Quarta,
10 de outubro - Passei o dia todo atrás de uma embarcação
para trazer a poita de volta para a baía. Verdadeira via sacra,
pois os preços eram inviáveis para puxar uma poita de 500
kgs, que demorou exatos 1,5 horas entre pegar na praia da Feiticeira e
leva-la de volta, trabalho considerado rápido e que somente foi
feito na manhã de sexta-feira depois de muita negociação.
Talvez se a poita pesasse 1,5 a 2,5 toneladas justificasse o preço e o trabalho mais caro.
Quando
falei com alguns pescadores para fazer o trabalho, estes não estavam
querendo naquele dia, porque 2 mergulhadores da Marinha faleceram durante
uma manobra na noite de segunda para terça-feira e a marinha estava
inspecionando todas as embarcações que normalmente fazem
aquele tráfego, para saber se tinham evidências dos corpos
nos hélices e saber quem os atropleou durante a noite.
Inclusive passaram
perto de mim, porém como estava na vela o tempo todo, não
me investigaram.
Por isto vi
tanta movimentação no canal quando trazia o veleiro.
Durante este dia os ventos estavam entre 10 a 20 nós de sudoeste, situação muito ruim para pegar a poita.
Mesmo outro veleiro de 30 pés que estava com lona de cobertura de proa a popa e apoiado em cima da retranca (verdadeira vela em vento forte, inclusive com força para rebentar a amarração), se soltou a noite e foi parar na Praia do Engenho D’Água, uma praia depois do Pindá. Não danificou porque a Ilhabela foi uma ilha vulcânica e suas praias são de tombo (você anda 10 metros e já tem fundo de 2,5 metros do nível do mar), ajudando inclusive no desencalhe do veleiro.
O sistema de informações é muito bom, pois os marinheiros se ajudam e a Capitania dos Portos desloca sua lancha para averiguação.
- Almir Mariano marinheiro
da baía do Pindá que comunicou a ocorrência logo cedo.
- Zé Lua que recebeu
o comunicado do Chico da ilha das Cabras sobre a posição
do veleiro as 08:00 horas e avisou o Almir.
- Sargento Regis da
Capitania dos Portos pelo pronto atendimento e comunicação
da posição do veleiro e Cabo Da Hora por ido ao local e ter
dado a localização da embarcação no mar.
- José do condomínio
da praia da Feiticeira, que ajudou no acesso a praia.
- João de Castro
mergulhador experiente que tem a traineira Transkenia que faz serviços
portuários para a Petrobrás e trouxe de volta a poita.
- Flávio Mancini,
proprietário do veleiro Conquest, Fast 23, pela descrição
da viagem para Santos.
- As nossas anjas da guarda
em Ilhabela na Estação Rádio Costeira do Yacht Clube
de Ilhabela pelas informações meteorológicas.
Bibliografia.
- Revista Galileu, junho
de 2000 , ano 9, n.o 107
- Vejinha São Paulo
ano 33 n.o 44
- CPTEC - Centro de Pesquisas
Tecnológicas e INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais