ILHA SAILING Ocean School - HISTÓRIAS DO MAR
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Santos-Rio

Barcos de Madeira, VelasHomens de Ferro


 
 

Neste ano que se comemora a 50ª versão da mais tradicional regata de oceano do Brasil, a Santos-Rio,tem-se a oportunidade de resgatar um pouco da historiografia do iatismo brasileiro. Revelam-se nela as transformações ocorridas no esporte nas quases cinco décadas de sua existência. Tendo em vista a riqueza de documentação das doze primeiras versões, e a escassez de fontes subseqüentes, nota-se uma valorização das regatas iniciais.Sentimos a necessidade de informar que as fontes pesquizadas, em sua maioria, fontes prímarias, se esgotam ainda no início da década de 60. Coincidentemente,os depoimentos colhidos são atribuídos aos velejadores veteranos que se empenham em resgatar, preservar e tornar pública a riqueza e a importância do iatismo nacional. Sendo assim, esperamos estar contribuindo para celebrar a 50ª Regata Santos-Rio, além de inspirar às gerações futuras o culto à memória do iatismo no Brasil, tão intimamente ligado á história do Iate Clube do Rio de Janeiro.

 
 

Ao longo destes quarenta e nove anos que nos separam da I Santos-Rio, muito mudou o mundo, mudaram os homens, mudou a vela. O que antes era apenas desbravamento e aventura, hoje tornou-se técnica e profissionalismo. A escassez de combustível durante a Segunda Guerra Mundial propiciou de maneira indiscutível o desenvolvimento do esporte da vela no litoral brasileiro. Passada a guerra, o País começava a crescer, acompanhando, embora que de longe, o progresso internacional. Os moldes das embarcações eram trazidas dos Estados Unidos e artesanalmente construídos aqui os veleiros.


 

O proprietário, normalmente comandante do barco, acompanhava passo a passo a construção da embarcação, muitas vezes, sendo também o seu executor. Aquela era a sua opera e dela ele se orgulhava e com ela se realizava quando a dominava em pleno mar. Até 1951 as regatas eram circunscritas a lagoas e baías, locais mais abrigados. José Candido Pimentel Duarte, pioneiro da vela no Brasil, idealiza a realização de uma regata de longo percurso que, sem dúvida, seria um desafio aos velejadores da época. Mas, a vida lhe foi curta e Pimentel Duarte não teve tempo de executá-la, plantando apenas a idéia da Santos - Rio.


 

A conquista de novos desafios instigou Joaquim Belém, que acabara de construir o primeiro veleiro da classe Brasil nos estaleiros do Iate Clube do Rio de Janeiro, a realizar esta regata. Para tanto, contatou Mariano Jatahy Marcondes Ferraz, do Iate Clube de Santos (ainda em construção) e ambos executaram a Regata Santos - Rio, a primeira mais longa em águas brasileiras. Com um percurso médio de 180 milhas, esta regata tinha a sua largada no canal de Santos, saindo em direção à ilha de São Sebastião, podendo, ou não, passar por fora dela. O restante do percurso era pontuado por pequenas ilhas e outros acidentes geográficos até chegar, já em águas cariocas ao Arpoador, finalizando a prova.(vide carta náutica) Além da busca de aventuras, esta regata tinha o propósito de capacitar o velejador a adquirir desenvoltura e aprimoramento na arte de navegar. Pode-se dizer que a Santos - Rio era, àquela época, um exercício preparatório para as regatas internacionais como a Buenos Aires - Rio. Sua importância não se restringiu à disputa de veleiros, mas foi também, segundo Fernando Pimentel Duarte, a semente germinadora da organização da vela de oceano, traduzida na criação da Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO).

 


 

No início da década de 50, a sede do Iate Clube de Santos estava em construção no Guarujá, o que impossibilitava os encontros de velejadores. Sendo assim, os sócios do recém criado clube adotaram o restaurante Jangadeiro, na Ponta da Praia de Santos para realizarem as reuniões preparatórias da I Regata Santos - Rio. Até a inauguração do Iate Clube de Santos, o clube Saldanha da Gama dava o apoio necessário às embarcações. Desde a sua primeira versão, a Santos - Rio vem sendo realizada anualmente, comemorando-se, desta forma, neste ano, a 50ª regata e o seu 49° aniversário. Os preparativos desta regata mobilizaram a atenção de muitos veleiros que, animados, se dispuseram a participar do evento.

 


 

Doze barcos foram inscritos no ranking Ondina com a tripulação composta por Joaquim Belém, Jorge Costa Carneiro, Ernani Simões, Sérgio Costa Carneiro, Mário Simões e Hilário Corralis - Rio de Janeiro Majoy com Eduardo Simonsen, Hans Domschke, Alberto Motta, Rubens Marx, Gilberto Alcaide Valls e André Gregório - São Paulo Sirocco com Walter von Hütschler, Giorgio Santori, Lucas Gonker, Rudolf Erholn, Willy Dirk e E. Idzenga - São Paulo Vendaval com Fernando José Pimentel Duarte, Victor Hector Demaison, Luiz Felipe Haas, Jean Robert Maligo, Alcides Lopes, Bruno de Otero Hermanny, Carlos Flores, Paulo Egydio Martins, aspirantes Ivaldo Carvalho dos Santos, Lysias Rulland Kerr e Julio César Vidal Pessoa; e os marinheiros João da Silva Pinto e Miris Barros Pessoa - Rio de Janeiro Cayru II com Jorge Franke Geyer, Adhemar Nunes Pires, Cláudio Hoelck, Almir Pereira Baixo, Lauro Baptistotti e Haroldo Barabatto - Rio de Janeiro Bambino com German Frers, Horácio Pereda, Martin Ezcurra e Nestor Carraciolo - Argentina Biscaya com Ragnar Janér, Carlos Machado, Ayres H. da Fonseca Costa, Eric Lennart Svedelius, Sven Mansson e o marinheiro Domingos Oliveira - Rio de Janeiro Abaitaré II com Manoel Hypólito Mendonça Lima, Cid Nascimento, Jorge Miranda,Roberto Damasceno, José Moreira de Azevedo, João Signelli, João Pinto, Jethro Prado, Manoel Segadas Vianna, Mario Tulio Inecco, Rolando Cruz e o marinheiro Manoel Gonçalves Nascimento - Niterói Aracaty com Mariano Jathay Marcondes Ferraz, João Levy Silva, Francisco Izoldi, Mario Rubens Montenegro, Paulo César de Oliveira Gomes e o marinheiro Oscalino Lopes - São Paulo Vento Perso com Walter Behrens, Floyd Rippetoe Júnior, Kurt Pulborn, Guenther Ludwig, Ivan Paulo Bajanic e Erich Huebner - Rio de Janeiro Hirondelle com Fábio Faria Souto, Eduardo Souto de Oliveira, Antonio Barros Lima, Roberto Finnenberg e o marinheiro Bernardino Neves - Rio de Janeiro Aldebaran com Joaquim Pádua Soares, Klaus Wörhle, Hans Stoeffen, Rudolf Pohl, Zeppelin Wörhle, Henry Staines, Hermann Polig - Rio de Janeiro Os resultados desta primeira regata classificaram o classe Brasil Ondina como Vencedor que, para manter sua posição quase esgotou sua genoa, e o iole Vendaval como Fita Azul, chegando em tempo recorde de 23h50'. " A largada foi um problema complicadíssimo. Desde as 7h. soprava um sul-sudoeste, aumentando de intensidade à proporção que decorriam as horas e, às 14h. nenhum iate sabia o que içar."


 

Jethro Prado, do iate Abaitaré II do ICB "A Regata Santos - Rio foi praticamente toda um só vento largo, sendo o vento sudoeste de 15 a 20 nós"Ayres da Fonseca Costa Junior, do iate Byscaia do ICRJ "Com a regata Santos - Rio, em outubro deste ano, foi cumprida a primeira prova de longo percurso, ou de alto mar, promovida pelos brasileiros. Foi, por conseguinte, uma realização histórica, não suficientemente aquilatada pelos participantes, nem bastante evidenciada, ou melhor, vincada. (...) Como o fim da vela nacional, principalmente da vela de oceano, somente poderá coincidir com o fim do mundo, quando, ou por força da bomba atômica ou de outras repentinas causas de morte, não haverá mais tempo para grandes festejos, dever-se-ia, ao menos agora, em torno do berço do recém-nascido, armar um cortejo comemorativo bem vistoso. O que pretendo significar, com estas observações, é que se deveria ter tirado fotografias de cada um dos barcos participantes, de cada uma das tripulações, sem faltar nenhuma nem ninguém, de todos os funcionários e autoridades que, em Santos e no Rio de Janeiro, contribuiram para o acontecimento, e com estas fotografias adornar, para sempre, as paredes dos clubes de cada um dos presentes. Os comensais do banquete final deveriam ter-se inscrito, em ordem hierárquica e por tripulações, em algumas folhas de pergaminho ou papel, que seriam então encadernadas em um "livro de ouro". Bem, as boas idéias, muitas vezes, vêm tarde demais e no que ficou escrito não vai acusação alguma a qualquer pessoa. Nesse esquecimento, provàvelmente, o autor destas linhas, mais do que ninguém, é culpado, por ter tido pessoalmente mais profundos contatos com a história da vela de outros países. Também, só está chamando a atenção para o caso, na esperança de salvar alguma coisa neste sentido. Na esperança de que alguém, possivelmente se dê ao trabalho, ou melhor, se desse ao trabalho de transmitir aos pósteros, num pequeno panfleto, os pontos principais deste grande acontecimento. "Navigare necesse est. Vivere non necesse est." Este deveria ser o título, deveria ser a divisa de um iate clube; deveria ter sido o mote dum banquete de regata, mais ainda a resposta ao discurso em que o diretor de vela do Iate Clube do Rio de Janeiro, Ubiratan Nogueira de Bonoso, perguntava por que seria que tantas pessoas se expunham ao trabalho e aos sacrifícios exigidos pelo mar alto, em barcos tão pequenos, quando em terra firme teriam muito maior confôrto. A resposta contida na oração que o nosso estimado Almirante Lemos Basto, presidente da Confederação Brasileira de Vela e Motor, pronunciou naquela ocasião satisfez-nos, porém, inteiramente. Aliás, tudo o que entendeu de dizer, deveria, sem falta, ser recordado e publicado. (...)


 

Quanto às nossas condições geográficas, principalmente no campo da vela de alto mar, não fomos nada favorecidos pela natureza. Nossa extensa costa é direita, quase desprovida de portos naturais, sem grandes baías, fiordes, rias, esteiros, numa palavra, águas protegidas mas ligadas ao mar, como por exemplo, a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ou o excelente Long Island Sound, nos Estados Unidos, que mede mais de cem milhas marítimas de comprimento, por vinte de largura, e é apenas, um dos muitos "sounds" daquele privilegiado litoral. Esta falta é para nós um pesado "handicap" e, por isso, tanto mais admirados devem ser todos quantos tomam parte na vela de oceano, nessas regatas de longo curso e na assaz extensa Buenos Aires - Rio de Janeiro. Tenho a convicção de que a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Grã - Bretanha, os Estados Unidos e outros países, se tivessem litoral semelhante ao nosso, possuiriam apenas uns 25 por cento dos barcos de recreio de que dispomos. Sobressai, portanto, que não nos faltam coragem e espírito esportivo de sacrifício. Poucos portos, pôsto algum de salvamento, poucos faróis, diminuta navegação de pequena cabotagem, comumente excessivo calor, tudo é obstáculo que o velejador nacional tem, de sôbrecarga, que transpôr. (...) A primeira regata brasileira de longo percurso é também notável sob outro aspecto. É o mais bonito monumento à memória do querido e prematuramente falecido José Candido Pimentel Duarte, seu planejador e idealizador."





 

Walter von Hütschler Revista Yachting Brasileiro, nº 86, dezembro de 1951

 
 
 

 
 

Vencedores da Santos-Rio



1951 ONDINA.................JOAQUIM BELÉM
1952 ONDINA.................JOAQUIM BELÉM
1953 PROCELÁRIA......FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1954 CANGACEIRO.............DOMÍCIO BARRETO
1955 MISTRAL................LEON MARIUS JOULLIÉ
1956 SIROCCO......,,,,,,,...BRUNO HOLLNAGEL
1957 PROCELÁRIA......FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1958 ANGICA III.............MARCOS MERHY
1959 SINGOALLA..............RAGNAR JANÉR
1960 VENDAVAL II............JOSÉ LUIZ PIMENTEL DUARTE
1961 PROCELÁRIA......FERNANDO PIMENTAL DUARTE
1962 TURUNA.................CAIO DE BARROS PENTEADO
1963 BERMUDA................DOMINGOS GIOBBI
1964 PROCELÁRIA......MANOEL DE SOUZA CAMPOS
1965 CAYRU III..............JORGE FRANKE GEYER
1966 SAGA...................ERLING SVEN LORENTZEN
1967 SARGAÇO II......EBERT CHAMOUN
1968 PLUFT..................ISRAEL KLABIN
1969 SAGA...................ERLING SVEN LORENTZEN
1970 SEVEN..................PARKER GILBERT
1971 BUSCAPÉ.........PAULO MONTEIRO LIMA
1972 ATREVIDO...............ARMANDO GRANDI
1973 MIRAGE.................GERRY MOOG
1974 WA WA TOO III..........FERNANDO NABUCO DE ABREU
1975 LIHO LIHO..............ERNESTO BREDA
1976 WA WA TOO III..........FERNANDO NABUCO DE ABREU
1977 LIHO LIHO...............MILTON FERREIRA
1978 KRISHNA.................ROBERTO PELLICANO
1979 BARCO...................MARIO ROCCO SIMÕES
1980 FIVE STARS..............ROBERTO PELLICANO
1981 MADRUGADA...............PEDRO PAULO COUTO
1982 CARRO CHEFE.............LAURITS VON LACHMANN
1983 MADRUGADA...............PEDRO PAULO COUTO
1984 RESSACA.................GLERIO FARIAS PASSOS
1985 OSPREY XXV..............AXEL SCHMIDT
1986 ALUCINANTE..............LUIZ CARLOS SIMÃO
1987 BICHO PAPÃO JR...EDUARDO DE SOUZA RAMOS
1988 DANIEL HECHTER..........JOÃO CARLOS CAIO JUNIOR
1989 SAGA IV................ ERLING SVEN LORENTZEN
1990 BLAUPUNKT...............EDUARDO DE SOUZA RAMOS
1991 SOUZARAMOS/RICCI..........EDUARDO DE SOUZA RAMOS
1992 SAGA....................ERLING SVEN LORENTZEN
1993 MAGIA/POLIBRASIL..........TORBEN GRAEL
1994 MAGIA/POLIBRASIL..........TORBEN GRAEL
1995 H3+/REEBOK................LARS GRAEL
1996 MAGIA/POLIBRASIl..........TORBEN GRAEL
1997 GOSTO D'ÁGUA.......ILDEFONSO WITOSLAVSKI JR.
1998 TRANSBRASA................MARK ESSLE
1999 SIROCCO...................INÁCIO JADRESES

 

 
 

 Fita Azul da Santos-Rio

 
  1951 VENDAVAL ...........FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1952 ONDINA..............................JOAQUIM BELÉM
1953 PROCELÁRIA.................. FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1954 CANGACEIRO..........................DOMÍCIO BARRETO
1955 MISTRAL...........................LEON MARIUS JOULLIÉ
1956 SIROCCO.............................BRUNO HOLLNAGEL
1957 PROCELÁRIA...................FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1958 ANGICA III..........................MARCOS MEHRY
1959 SINGOALLA...........................RAGNAR JANÉR
1960 SIROCCO.............................BRUNO HOLLNAGEL
1961 PROCELÁRIA...................FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1962 TURUNA..............................CAIO DE BARROS PENTEADO
1963 VENDAVAL III.................JOSÉLUIZ PIMENTEL DUARTE
1964 CAIRU III...........................JORGE FRANKE GEYER
1965 CAIRU III...........................JORGE FRANKE GEYER
1966 SAGA................................ERLING SVEN LORENTZEN
1967 PLUFT...............................ISRAEL KLABIN
1968 PLUFT...............................ISRAEL KLABIN
1969 SAGA................................ERLING SVEN LORENTZEN
1970 SEVEN...............................PARKER GILBERT
1971 SEVEN...............................PARKER GILBERT
1972 SORCERY.............................J. B. BAULDWIN
1973 WA WA TOO III.....................FERNANDO NABUCO DE ABREU
1974 SAGA III............................ROBERTO PELLICANO
1975 BUMBLEBEE III.......................JOHN KAHLBETZER
1976 WA WA TOO III.....................FERNANDO NABUCO DE ABREU
1977 TIGRE.............................FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1978 TIGRE.............................FERNANDO PIMENTEL DUARTE
1979 SAGA..............................ERLING SVEN LORENTZEN
1980 ÍNDIGO.......................IVAN BOTELHO
1981 MADRUGADA.........................PEDRO PAULO COUTO
1982 SAGA................................ROBERTO PELLICANO
1983 MATRERO II.........................TORÍBIO DE ACHAVAL
1984 CURYMAN.............................WILLIAM MACLAREN
1985 CARRO CHEFE.........................LAURITS VON LACHMANN
1986 CARRO CHEFE.........................LAURITS VON LACHMANN
1987 CISNE BRANCO......................ÉRICO DE ALBUQUERQUE
1988 DANIEL HECHTER.................JOÃO CAIO CARLOS JUNIOR
1989 SAGA IV.............................ERLING SVEN LORENTZEN
1990 NEPTUNUS V...........................SÉRGIO MIRSKY
1991 SOUZARAMOS/RICCI....................EDUARDO DE SOUZA RAMOS
1992 SAGA.............................. ERLING SVEN LORENTZEN
1993 MAGIA/POLIBRASIL....................TORBEN GRAEL
1994 MAGIA/POLIBRASIL....................TORBEN GRAEL
1995 MAGIA/POLIBRASIL....................TORBEN GRAEL
1996 MAGIA/POLIBRASIL....................TORBEN GRAEL
1997 MISS BONZÃO..............SÉRGIO GORETKIN
1998 MITSUBISHI.................... EDUARDO DE SOUZA RAMOS
1999 MITSUBISHI......................EDUARDO DE SOUZA RAMOS






 

REMINISCÊNCIAS


 

A Taça Cidade de Santos, instituída pela Prefeitura daquela cidade, garantia, ao skipper que mais obtivesse vitórias nas cinco primeiras regatas, a sua posse definitiva. Vencendo em 1951 e 1952, Joaquim Belém do Ondina conquista a Taça. Em 1954, ano em que se comemorava o 4° Centenário da fundação de São Paulo, O Iate Clube de Santos e o Iate Clube do Rio de Janeiro resolvem participar das homenagens prestadas àquela cidade e invertem o sentido da regata, que passa a ter a largada no Rio de Janeiro e a chegada em Santos. Apenas uma outra vez este percurso é repetido, no ano de 1972. Em homenagem ao V Centenário da morte do Infante D. Henrique, o Navegador, a 10ª regata Santos - Rio foi disputada em sua homenagem. Vence a iole finisterre Vendaval II de José Luiz Pimentel Duarte, mesmo fazendo água desde o início da regata. Em 1961, o Procelária de Fernando Pimentel Duarte chega doze horas antes do segundo colocado, o Curussá de Rudolph Göeller. O barco vencedor da 12ª regata, o Turuna, tem em sua tripulação a esposa e o filho do comandante, Caio de Barros Penteado. Em 1963 o Cangrejo de Peter Reeves é abalroado por um navio mercante não identificado. Três homens, além do comandante, caem ao mar, escapando ilesos do acidente. Em 1964, o Procelária de Fernando Pimentel Duarte vence a regata e conquista o tetracampeonato pelas vitórias de 1953, 1957 e 1961. Tal feito repetir-se-ia somente com o Saga de Erling Sven Lorentzen, vencedor de 1966, 1969, 1989 e 1992. Aproveitando a vinda de velejadores da regata Santos - Rio que atraía competidores estrangeiros, surge a idéia de criar-se um circuito de regatas de pequeno e médio percurso, concentrado entre os dois maiores pólos de vela do Brasil - Rio e São Paulo. Nasce então, no ano de 1970, 19º ano da Regata Santos - Rio, o Circuito - Rio. Na década de 70, muitas inovações nos materias são utilizadas pelos velejadores. O uso da fibra de vidro na estrutura dos barcos e os novos mecanismos são fatores de transformação neste período. A indústria naval deslancha e o incentivo ao iatismo também. O início da cobertura das regatas dá-se de forma inusitada. Não era do agrado dos velejadores revelar sua posição exata. Sendo assim, os diretores de Radiocomunicação Mucio Lodi do Iate Clube do Rio de Janeiro e Ernesto Diederichsen do Ilhabella Yacht Club, dividem a carta náutica em quadrículas e solicitam aos velejadores que apenas indiquem a quadrícula onde se encontram. Desta maneira, garantem o controle da regata e mantém em segredo a posição dos barcos. Fruto do desenvolvimento da indústria naval, a vela de oceano na década de 80, se inicia com a vitória, na Santos - Rio, de um veleiro de fabricação cem por cento nacional, o Barco de Mário Simões. A regata Santos - Rio de 1981, 1ª do Campeonato Brasileiro da Classe de Oceano, foi uma das mais combativas já realizadas, considerada a mais dura dos últimos anos. A largada foi em meio a ventos fortes de leste que sopravam já há uma semana. Muitos barcos desistiram por avarias nos cascos e esgotamento físico de alguns tripulantes. Na primeira noite, os ventos chegaram a atingir 40 nós, na altura da Ponta do Boi, aparecendo também uma corrente contrária de quase três metros. Estas condições eram especialmente favoráveis para os barcos de maior porte. No dia seguinte, alguns tentaram se aproximar da costa à procura do terral, quando o vento leste já não soprava tão forte. Foi então possível fazer o acompanhamento, via Sala Rádio, do avanço penosamente lento dos barcos, milha após milha. Apesar de toda experiência de Roberto Pellicano, O Gaivota VII ficou encalmado 12h ao largo da Ilha Grande e o Super Tension, de Alain Joullié, quase 14h próximo à restinga da Marambaia. Momento de grande tensão ocorreu quando o Indigo, de Ivan Botelho e o Wa Wa Too, de Fernando Nabuco de Abreu, comunicaram sua aproximação e o público que os aguardava percebeu que os barcos disputavam bordo a bordo a vitória. No entanto, sem que ninguém esperasse, o Madrugada, de Pedro Paulo Couto, que sofrendo uma pane elétrica não fizera nenhum contato, surge, para surpresa geral, devagarinho pelos lados da Ilha Rasa, vindo por fora, num só bordo, até a Ponta do Arpoador. O barco venceu a regata nos tempos real e corrigido. Na regata de 1990, o veterano velejador de oceano, Sérgio Mirsky, apesar de convalescente de uma cirurgia coronária, conduz o seu Neptunus V à conquista da Fita Azul. Sérgio Mirsky, até hoje é o comandante que mais vezes participou da Santos - Rio. Em 1995, confirmando a alta tecnologia dos materiais empregados, o H3+/Reebok, do comandante Lars Grael bate o recorde no tempo corrigido em 20 42'45''. O recorde anterior foi mantido durante 45 anos pelo Vendaval do comandante Fernando Pimentel Duarte. "Na regata Santos-Rio, nós tivemos a oportunidade de, desde a partida, contarmos com um vento favorável, de quadrante sul, chegando até mesmo à direção sudeste, após Ilhabela. Mas, no primeiro trecho, entre a largada e Ilhabela, os barcos tiveram vento em popa numa média de velocidade que, provavelmente não daria para atingir o recorde no tempo real nem no corrigido. Mas, a partir da passagem do canal de Ilhabela, opção de todas as embarcações que participaram da competição, o vento entrou muito forte, chuvoso, com mar, corrente favorável mais ou menos na direção sul/sudeste. Todos os barcos, então, escolheram a genoa para velejar. Corríamos no H3+/Reebok, um barco especialista em ventos folgados pois, pelo seu desenho de fundo muito plano, atingia um planeio com facilidade. Além disso, é um barco muito valente nos ventos fortes. O grande diferencial que possibilitou a vitória foi que, enquanto os demais barcos da flotilha tiveram seus balões rasgados quando atravessavam o vento, o H3+ conseguiu velejar 12 horas de balão em cima. O barco foi planando e tendo diversas avarias e, quando o dia amanheceu, entrou o vento um pouco mais de proa e nós tivemos que recolher o balão e velejar de genoa. Não fizemos um tempo corrigido ainda menor porque, quando estávamos no través da Barra de Guaratiba, arrebentou o estai de força do barco. O mastro quase quebrou. Na mesma hora, tivemos que cambar o barco, andando em direção oposta ao Rio de Janeiro. Tivemos que tirar todas as velas do barco. O Kiko Pellicano teve que subir no mastro e tirar o mesmo estai do lado de bombordo e passar para o lado de boreste para o barco continuar velejando. Só então conseguimos subir as velas de novo e completarmos a regata em tempo recoder.



Lars Grael




 

As mudanças econômicas ocorridas ainda em meados da década de 80 arrefeceram as disputas no iatismo brasileiro, em especial na vela de oceano. Até para os mecenas do esporte, que empregavam somas vultosas em seus barcos e tripulações, os novos tempos sugeriam cautela e contenção. Poucos barcos estavam na raia para disputar a Santos - Rio que, em 1988, registrou o seu mais baixo índice com 13 veleiros inscritos. Já na década de 90, percebe-se um reaquecimento na vela de oceano com o patrocínio mais acentuado às tripulações e o advento da classe IMS. Em 1991, o número de barcos inscritos chegou a 38 e, em 1996, a 43, confirmando a excelência da Santos - Rio, considerada a mais importante regata de oceano do calendário nacional. Para a regata do Jubileu de Ouro é esperada a participação recorde de 50 embarcações.Esperamos, com esta mostra, homenagear aqueles que, apesar das adversidades, jamais abandonaram as raias, mantendo acesa a chama e as velas enfunadas. E igualmente homenagear os Iate Clube de Santos e Iate Clube do Rio de Janeiro, pelo apoio incentivador e necessário ao desenvolvimento da vela de oceano no Brasil.



FOTOS
PROCELÁRIA - acervo Fernando Magalhães.
VENDAVAL - acervo Fernando Magalhães.
VENDAVAL II - acervo Jean Maligo. Tripulação- José Luiz Pimentel Duarte, Henrique Zech, Jean Maligo, Oscar Mattoso Maia, John Aune, Helio Azevedo, Herbert Hasselmann e Figueira Barbosa.
SAGA - acervo Fernando Magalhães.
NEPTUNUS V - foto do livro Fita Azul de Sérgio Mirsky.
ONDINA - acervo Jorge Costa Carneiro.
SINGOALLA - acervo Jorge Costa Carneiro.
MAGIA/POLIBRASIL - acervo Alexandre Haddad.
ONDINA - acervo Jorge Costa Carneiro. Tripulação - da esq. Sérgio Costa Carneiro, Ernani Simões, Hilário Corralis, Joaquim Belém, Nélson Belém, Mário Simões e Jorge Costa Carneiro.
ONDINA - acervo Jorge Costa Carneiro. Jorge Costa Carneiro, Joaquim Belém e Ernani Simões.
H3+REEBOK - acervo Alexandre Haddad.
MITSUBISHI - acervo ICRJ.
ALDEBARAN - acervo Paulo Müller.
ONDINA - Revista Yachting Brasileiro. Tripulação - Joaquim Belém, Ernani Simões, Carlos de Brito, Paulo César, Antonio Simões, Werner Hasse e Alexandre Amorim.
LARGADA DA REGATA RIO-SANTOS DE 1954 - acervo Fernando Magalhães. (carta náutica) - acervo ICRJ.
MADRUGADA - revista Vela e Motor.
WALTER VON HÜTSCHLER entre ERNANI SIMÕES e AYRES H. Da
FONSECA COSTA - acervo Ayres H. F. Costa.
ALCATRAZES - acervo Paulo Müller.
PROCELÁRIA - acervo Fernando Magalhães. Tripulação - Victor Demaison, Fernando Pimentel Duarte, Alexandre Pereira de Souza, Manoel Campos, Wilson Teixeira, Fernado Caldas e Fernando Magalhães.
RESTAURANTE JANGADEIRO - Ângelo Reis, Peter Siemsen, Paulo Müller, Joaquim Belém, Leon Joullié, entre velejadores.
MISTRAL - Tripulação - Hélio Souto de Oliveira, Alberto Torres, Jorge Pontual, Leon Joullié, Alain Joullié e Roger Faure.
PLUFT - acervo ICRJ.
CALMARIA PODRE EM SANTOS, vê-se o Nathaly.
KAHUNA IV- acervo ICRJ
ALDEBARAN - Carlos Buarque de Macedo e Joaquim Pádua Soares.
RESTAURANTE JANGADEIRO - Ângelo Reis, Peter Dirk Siemsen, Paulo Müller, Joaquim Belém e Leon Joullié entre velejadores.
ONDINA - Mário Soares, Hilário Corralis, Joaquim Belém, Ernani Simões e Jorge Carneiro.
GALPÃO DO FUTURO IATE CLUBE DE SANTOS
CAIS DO FUTURO IATE CLUBE DE SANTOS. AO FUNDO, SEU GALPÃO.
VELEJADORES DA SANTOS-RIO DE 1955 - Destacam-se Ernani Simões, Joaquim Belém, Alberto Ferraz, Fernando Pimentel Duarte, Domício Barreto, Carlos de Brito e Rômulo Müller.
 








 
FICHA TÉCNICA

CURADORIA TEXTOS E PROJETO MUSEOGRÁFICO.....MARIA ELIZABETH DRUMMOND DE PAULA LABOURIAU
PESQUISA..................ALEJANDRA SALADINO
FOTOGRAFIAS...............PRISMA FOTOGRAFIA LTDA.
IMPRESSÃO DE TEXTOS.......VERTY COMUNICAÇÃO VISUAL
COLABORAÇÃO...............JORGE COSTA CARNEIRO
JEAN ROBERT MALIGO
FERNANDO PIMENTEL DUARTE
PAULO MÜLLER
AYRES H. DA FONSECA COSTA
MUCIO LODI
PETER DIRK SIEMSEN
RICARDO BAGGIO DE CARVALHO
JOSE BUARQUE DE MACEDO
SINVAL RODRIGUES FELISARDO JR.
RAMIRO MARTINEZ
VICE-COMODORO ROBERTO MONNERAT
WALDYR LIMA
ALEXANDRE HADDAD
AGRADECIMENTOS
AO COMODORO CARLOS DE BRITO
AO CONTRA COMODORO IBATÉ JOST
AO DIRETOR FINANCEIRO CARLOS ALBERTO DE OLIVEIRA
AO DIRETOR DE SEDE NILTON MIGUEL AJUZ